Uma análise do primeiro ano da gestão Affonso Cândido em Ji-Paraná

A avaliação de um primeiro ano de governo municipal exige cautela metodológica. Trata-se de um período que, em regra, concentra diagnóstico, reorganização administrativa e decisões estruturantes iniciais, sem que ainda seja possível mensurar plenamente os efeitos de políticas públicas de médio e longo prazo. Sob essa perspectiva, o primeiro ano da gestão do prefeito Affonso Cândido, no município de Ji-Paraná, pode ser compreendido como um ciclo predominantemente voltado à recomposição institucional da administração pública local.

Ao assumir o Executivo, a nova gestão encontrou uma máquina administrativa com sinais evidentes de paralisação operacional. Processos interrompidos, contratos de despesas continuadas não prorrogados, convênios perdidos e uma defasagem relevante de pessoal técnico compunham o cenário inicial. A ausência de concursos públicos por um longo período agravou esse quadro, reduzindo a capacidade técnica do município, especialmente nas áreas de saúde, educação, infraestrutura e planejamento.

Além das fragilidades administrativas, o ano de 2025 começou com a interrupção de serviços essenciais. Ji-Paraná encontrava-se sem transporte escolar regular e com a coleta de lixo descontinuada, situações diretamente relacionadas à não prorrogação de contratos na gestão anterior. Ainda assim, a atual administração conseguiu manter e recompor os serviços básicos, normalizando o transporte escolar com padrões mais adequados de qualidade, restabelecendo e ampliando a coleta de resíduos sólidos, recompondo o fornecimento de medicamentos e executando ações emergenciais de recuperação de estradas urbanas e rurais e de infraestrutura. Essas medidas foram decisivas para evitar a interrupção de serviços essenciais e preservar a normalidade administrativa mínima do município.

Paralelamente, a gestão herdou um cenário fiscal severamente restritivo. Um empréstimo contraído na gestão anterior, no valor aproximado de R$ 60 milhões, deverá gerar um custo final superior a R$ 140 milhões ao término do pagamento das parcelas, em razão dos encargos financeiros. As prestações mensais, em torno de R$ 1,8 milhão, comprometem diretamente a capacidade de investimento do município, o que obrigou o atual prefeito a repensar a economia municipal, revisar despesas e redefinir prioridades para suprir a lacuna orçamentária existente.

Diante desse conjunto de fatores, o primeiro ano foi marcado por um esforço concentrado de reorganização administrativa. Houve revisão de contratos, correção de procedimentos e alinhamento rigoroso aos apontamentos dos órgãos de controle. Embora esse trabalho produza poucos resultados imediatos perceptíveis à população, ele foi essencial para restabelecer segurança jurídica, previsibilidade administrativa e condições mínimas para a execução regular das políticas públicas.

Nesse processo, algumas decisões assumiram caráter estrutural. Destaca-se o anúncio do encaminhamento de projeto de lei para corrigir a defasagem salarial de servidores do grupo de apoio que ainda recebem como base valores inferiores ao salário mínimo. O ajuste considera o piso nacional anunciado pelo Governo Federal para vigorar a partir de 2026, em torno de R$ 1.625, substituindo a base atual de aproximadamente R$ 1.212. A medida alcança cerca de 900 servidores públicos municipais e representa adequação legal e correção de uma distorção histórica.

Outro avanço relevante é a retomada do planejamento para a realização de concurso público. Após anos sem reposição efetiva de servidores, o certame encontra-se em fase final de ajustes, aguardando manifestação da Procuradoria-Geral do Município. A expectativa é que o concurso contribua para recompor o quadro técnico e suprir carências históricas em áreas estratégicas, fortalecendo a capacidade operacional do município no médio prazo.

No plano político-institucional, observa-se uma mudança significativa na relação entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo. A atual gestão estabeleceu uma interlocução estável e institucional com a Câmara Municipal, contando atualmente com o apoio dos 17 vereadores nas pautas centrais de interesse do município. Esse ambiente contrasta com o cenário observado na gestão anterior, quando a relação entre Executivo e Legislativo era marcada por conflitos permanentes, instabilidade política e um clima que frequentemente se assemelhava a um campo de disputa. A construção desse diálogo tem sido determinante para dar previsibilidade às votações e permitir que projetos estruturantes avancem com maior segurança.

Do ponto de vista político, a oposição ao atual governo se mostra frágil, desorganizada e tecnicamente despreparada para exercer o papel de fiscalização qualificada. Falta domínio básico sobre o funcionamento da máquina pública, sobre normas administrativas e sobre a própria realidade financeira do município. Em vez de apresentar críticas fundamentadas ou propostas alternativas, a oposição recorre reiteradamente a ataques pessoais, acusações vazias e discursos desconectados dos fatos, frequentemente ultrapassando os limites da crítica política responsável. Parte significativa desse movimento é claramente patrocinada e estimulada pelo ex-prefeito derrotado nas urnas, cuja gestão encerrou-se com baixa avaliação popular e rejeição eleitoral. O resultado é uma oposição que mais se autossabota do que contribui para o aprimoramento da administração, incapaz de impor ao Executivo qualquer pressão institucional séria que obrigue correções de rumo.

Outro elemento observado no primeiro ano foi a ausência de intervenções policiais de grande repercussão envolvendo a administração municipal. Em contraste com o período anterior, marcado por operações sucessivas de órgãos de investigação, o ambiente institucional atual apresenta maior estabilidade, reduzindo riscos e incertezas na condução da máquina pública.

Isso não elimina os desafios existentes. O planejamento municipal ainda demanda avanços significativos, com projetos mais maduros, cronogramas definidos e maior integração entre secretarias. A área da saúde permanece como um dos principais pontos de atenção, exigindo que os esforços de reorganização se convertam gradualmente em melhorias percebidas pela população.

Em síntese, o primeiro ano da gestão Affonso Cândido pode ser caracterizado como um período de reorganização e estabilização institucional. Não foi um ano marcado por grandes entregas estruturais, mas por recomposição administrativa, normalização de serviços essenciais, ajuste fiscal e reconstrução das relações políticas e institucionais. As perspectivas para 2026 dependerão diretamente da capacidade da gestão de transformar organização em execução e planejamento em resultados concretos para a população de Ji-Paraná.

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